3 técnicas simples para aumentar os amigos naturais na horta orgânica.

3 técnicas simples para aumentar os amigos naturais na horta orgânica.

Para quem já tem uma horta provavelmente vai saber do que estou falando. E para você que pretende fazer uma, essa informação é super importante! O cultivo de hortas orgânicas requer aprendizado e observação  da natureza. Estou certo?

Observar os milhares de seres que pelo menos são visíveis e que se interrelacionam com a horta é um passo essencial para seu futuro como agricultor orgânico seja na cidade ou no campo.

Esses seres, cientificamente recebem o nome de Inimigos Naturais, aqui vou tratar de nossos amigos naturais. Não é a toa que poeticamente convencionei chamá-los assim! Os amigos naturais são organismos que se alimentam de outros organismos que podem causar danos a sua horta. Eles mantem o ecossistema equilibrado possibilitando que a população de organismos fique abaixo daquele que poderia causar algum dano.

Os amigos naturais são espécies de insetos, fungos, bactérias e alguns vírus, classificados de acordo com sua estratégia de conseguir seu alimento em:

Predadores – o mais famoso predador é a Joaninha, na verdade é uma espécie de besouro da ordem Coleoptera. Ele se alimenta de uma infinidade de insetos, incluindo pulgões, lagartas, thripes e cochonilhas. São capazes de comer mais de 100 pulgões por dia, por isso são grandes aliados da horta orgânica. Costumam ser maiores que suas presas e bastante vorazes. Os mais comuns são os percevejos predadores como o Orius e Podisus. O bicho lixeiro, a tesourinha e e alguns ácaros predadores. Se voce conhece outros predadores, compartilhe com a gente nos comentários.

 

Ninfa de percevejo predador se alimentando de uma lagarta (Insect images)
Ninfa de percevejo predador se alimentando de uma lagarta (Insect images)
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Percevejo Orius se alimentando de um ovo (Insect Images)
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Ninfa do Bicho lixeiro (Chrysopa sp.) se alimentando de um pulgão. (Insect Images)

Parasitas ou parasitóides – uma característica marcante de um parasitóide e a sua dependência da presa para completar seu ciclo de vida. Um exemplo é o Trichogramma, (lê-se “Trikogramma”) uma vespinha que mede menos de 1 milímetro de comprimento, mas  bastante estudada no Mundo para o controle de inseto na agricultura. Seu comportamento alimentar é bastante curioso e avançado. Para matar sua vítima, a fêmea coloca seu ovo literalmente no interior dos ovos de outros insetos. A larva do trichogramma eclode se alimentando do embrião da futura lagarta. É melhor ter um punhado dessas vespinhas na sua horta, vou explicar como!

Vídeo mostrando o comportamento de parasitismo de Trichogramma sp (Adaptado de: Filming Varwild)

Entomopatógenos – São organismos que causam doenças nos insetos. A agricultura orgânica se utiliza desses organismos para substituir o uso de agrotóxicos. Eles estão presentes naturalmente em nossos solos, são coletados e multiplicados para uso no controle várias espécies de insetos-praga (embora o conceito de “praga” seja encarado de outro ponto de vista pela Agroecologia e Agricultura Orgânica, estou utilizando o termo para que você entenda melhor).

Os mais conhecidos dos agricultores orgânicos são dos fungos Metarhizium, Beauveria, alem da bactéria Bacillus thuringiensis. Os fungos entomopatogênicos podem contaminar o inseto pelo simples contato com seu exoesqueleto, penetrando em suas membranas, colonizando todo o seu corpo, causando morte do inseto por infecção generalizada.

Já as bactérias precisam ser ingeridas para que suas toxinas tenha ação sobre o intestino provocando seu rompimento, parada na alimentação e morte.

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Percevejo infectado pelo fungo Metarhizium sp. (Sipweb)

 

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Lagarta infectada pelo fungo Beauveria sp. (Insect Images)

Técnicas para atrair os amigos naturais

 1ª Técnica – Faixas de vegetação espontânea

O uso de faixas de vegetação espontânea nada mais é do que deixar o mato entre os canteiros. A largura da faixa irá variar do espaço que dispõe, mas em geral usa-se de 1 a 2 metros, não existe uma recomendação exata. Em algumas lavouras de morango orgânico na região serrana do Estado do Espírito Santo, a cada 6 canteiros é deixado uma faixa de vegetação.

As vantagens do uso das faixas de vegetação são:

  • Servem de abrigo para os amigos naturais;
  • fornecem complemento alimentar de pólen e néctar para os amigos naturais;
  • é uma barreira física para insetos e doenças que são disseminados pelo vento e chuva;
  • aumenta a fertilidade do solo e mantem a umidade em níveis adequados.
Lavoura de Morango orgânico com faixas de vegetação a cada 6 metros. (foto: Fabio Morais)
Lavoura de Morango orgânico com faixas de vegetação a cada 6 metros. (foto: Fabio Morais)

 

2ª Técnica – Biodiversidade planejada

É importante conhecer as espécies de plantas que hospedam uma infinidade de amigos naturais. Já existem pesquisas aqui no Brasil que indicam algumas espécies chave nesse planejamento. Ressaltando que o planejamento da biodiversidade e a escolha dessas espécies vai depender muito da região onde você está. No entanto vou apresentar algumas que estão distribuídas praticamente em todo território nacional e seus respectivos amigos naturais associados.

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Nível de manejo mais complexo da biodiversidade na produção agroecológica. (fonte: fanpage Horta Mandalla)

Veja se você conhece algumas delas aí na sua região!

Plantas atrativas de joaninhas e  percevejo predadores, principalmente da espécie Orius sp.

Caruru ou Cariru (Amaranthus sp.). (Fonte: avrdc)
Caruru ou Cariru (Amaranthus sp.). (Fonte: avrdc)
Apaga-fogo (Alternanthera tenella). (fonte:...)
Apaga-fogo (Alternanthera tenella). (fonte: Biolib)
Milho (Zea mays). (fonte:...)
Milho (Zea mays). (fonte: Photl)

Plantas atrativas de diversas espécies de parasitóides com destaque para as vespinhas Trichograma e Cotesia sp

Cravo-de-defunto (Tagetes sp.). (fonte:luirig.altervista)
Cravo-de-defunto (Tagetes sp.). (fonte:luirig.altervista)
Mostarda silvestre (Brassica sp). (fonte:4.bp)
Mostarda silvestre (Brassica sp). (fonte:4.bp)
Girassol (Helianthus annuus). (fonte: compgenomics.ucdavis)
Girassol (Helianthus annuus). (fonte: compgenomics.ucdavis – Nolan kane)
Serralha (Sonchus  oleraceus).(fonte:squirrelbasket)
Serralha (Sonchus oleraceus).(fonte:Squirrelbasket)

Atrativas de diversas espécies de Joaninhas

Coentro (Coriandrum sativum). (fonte:colorfulnature)
Coentro (Coriandrum sativum). (fonte:Colorfulnature – Yonatan Matalon)
Endro (Anethum graveolens). (fonte: Tramil)
Endro (Anethum graveolens). (fonte: Tramil)
Macaé (Leonurus sibiricus). (fonte: saatgut-vielfalt)
Macaé (Leonurus sibiricus). (fonte: saatgut-vielfalt)

3ª Técnica – Implantação de policultivos

Policultivos se caracterizam pelo cultivo de diversas plantas no mesmo tempo e espaço, de modo que esse arranjo seja benéfico para as plantas. Esses benefícios incluem atração de amigos naturais e polinizadores, cobertura do solo, aporte de matéria orgânica para o próximo plantio, otimização do uso do solo e regulação de populações de insetos-praga.

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Influencia de alguns policultivos na regulação de populações de insetos (Adaptado de: Altieri, M.A, Silva, E.N & Nicholls, C.I. 2003)

Como se viu, a natureza é bastante complexa e compreender essas relações é fundamental para aprender a plantar alimentos orgânicos. Se quiser se aprofundar um pouco mais nesse tema, assista a aula sobre Como utilizar o controle biológico na agricultura orgânica. Qualquer dúvida estou a disposição, mande um comentário e vamos conversar!

 

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Fabio Morais


Gosto do cheiro da terra molhada e tomar banho de chuva. Gosto da roça, do contato com a terra. Minha profissão! Engenheiro Agrônomo que ama a agricultura orgânica e agroecologia.
  • Deborah Monteiro

    boa tarde ! estou adorando e devorando a leitura !! obrigada pelas informações preciosas que aqui estão !
    Gostaria de saber o que vc aconselha para plantar na serra da mantiqueira , Camanducaia (MG).
    obrigada

    • Deborah, para dar uma recomendação mais precisa, preciso de algumas informações como: Altitude da sua região ou da sua propriedade rural ou da sua área de plantio (quintal, chácara etc..

  • Roberto

    Puxa, ótimas dicas! Como é importante ter “mato” na horta. Como disse o agricultor Ernst Götch, “o mato não é mato”.

    • Fabio Morais

      Oi Roberto, com certeza o Mato não é Mato! Aos pouco estamos mudando a cultura da “limpeza” e do monocultivo na agricultura.

  • Alysson Almeida

    Excelente material. Gratidão.

    • Fabio Morais

      Muito obrigado! Qualquer dúvida estou por aqui.