Horta agroflorestal biodiversa: O início

Como fazer uma horta agroflorestal biodiversa: O início

Olá, sou e Fabio Morais, Agrônomo da Universidade Orgânica. Neste artigo você vai acompanhar e aprender como planejar uma horta agroflorestal biodiversa. Sempre morei em casas alugadas e até hoje penso que não vale a pena fazer um empréstimo a longo prazo, longo mesmo, 30 anos! Isso tudo para ter uma casa própria. Agora consegui uma casa com um lindo quintal de 75 metros quadrados  com um lindo pé de manga rosa no centro. Eis a chance para transformar esse quintal num espaço de produção de alimentos realmente saudáveis.  

Mas porque uma horta agregada a uma agrofloresta biodiversa?

Antes de responder essa pergunta, faço outra: você sabe o que é uma agrofloresta?

Uma agrofloresta biodiversa de forma simples é a união harmoniosa de cultivos agrícolas e árvores baseada na sucessão natural, mantendo um fluxo produtivo no espaço e no tempo,  criando abundância de vida no ambiente.

Observe uma floresta, perceba que ela é feita de camadas ou estratos, o primeiro estrato é a serapilheira. Uma camada de resíduos orgânicos em diferentes estágios de decomposição que forma um colchão de vida. A serapilheira é o espaço das transformações onde uma quantidade enorme de microrganismos transformam os resíduos orgânicos em substâncias simples que são usados pelas plantas e pelos próprios organismos.

Exemplo de estratos de uma agrofloresta. (Imagem: autor desconhecido)

O segundo estrato são aquelas plantas rasteiras mais adaptadas a condição de sombreamento, e mais resistentes as condições do solo, suas raízes são pequenas. O terceiro estrato é o estrato baixo, composto pequenos arbustos e árvores em crescimento e que também exigem um certo nível de sombreamento para se desenvolverem. No estrato médio, árvores maiores que já se destacam na paisagem e no estrato alto aquelas adultas e certamente com mais de 30 anos de idade.

A dinâmica de uma floresta ocorre pela sucessão natural onde cada espécie ao cumprir sua função sai do sistema dando lugar para outras e isso na prática ocorre quando a abertura de clareiras pela queda natural ou provocada de árvores do estrato alto. A abertura da clareira cria uma explosão de vida pela entrada de luz. Aquelas sementes adormecidas no solo, germinam, aquelas plantas que necessitam de mais luz se desenvolvem mais rápido, sem  falar nas toneladas de matéria orgânica disponibilizadas pela queda da árvore.

Depois dessa explicação simples da dinâmica de uma floresta, o segredo é tentar chegar o mais próximo possível dessa dinâmica só que agora cultivando alimentos com o mínimo possível de uso de insumos externos ao sistema.  Lembra daquela pergunta no início do artigo? Acho que já estou respondendo aqui.

Passos que utilizei para planejar a horta agroflorestal

Não existe uma receita pronta para implantar uma agrofloresta, o mais importante é começar, observar e aprender com erros e acertos. Problemas vão existir mas eles são apenas recados que a natureza dá indicando que algo deve ser mudado e que algumas espécies ainda não estão no seu lugar. Portanto ser curioso e fazer experimentações é condição essencial para ter uma horta agroflorestal

Primeiro passo: Escolha das espécies

Espécies escolhidas para compor a horta agroflorestal (Imagem: Fabio Morais – Universidade Orgânica EAD)

Cada espécie tem uma função no sistema e não existem modelos prontos com as espécies certas. A escolha e o uso varia da sua região pois o importante é que as espécies estejam adaptadas no seu ambiente, plantas da sua região. A escolha também deve levar em consideração o objetivo da agrofloresta. É uma agrofloresta aliada a criação de animais? As espécies podem ser utilizadas para cerca viva ou quebra vento? Quais a finalidade principal da agrofloresta? Produção de hortaliças, madeira, recuperação de áreas degradadas? No meu caso o objetivo é a produção de hortaliças (alface, tomate e cebolinha etc..) e frutas (Banana, caja-mirim e caju-anão).

Como tenho apenas 75 m2 e neste terreno um pé de manga, decidi inicialmente podar alguns ramos do pé de manga para entrar mais sol na área. Isso vai proporcionar um aporte de matéria orgânica no sistema através do depósito das folhas e dos troncos no solo.

Resultado da poda de abertura de clareira e disposição dos troncos em contato com o solo. (Imagem: Henrique Souza – Fazenda Ouro Fino)

Basicamente e de maneira didática podemos dividir as espécies em três grupos de acordo com sua função.

Espécies placenta ou de acumulação

Esquema de sucessão florestal no tempo e no espaço.

São chamadas de placenta aquelas espécies usadas para enriquecer a área de matéria orgânica e fornecer nutrientes para o sistema. Elas que vão dar as condições necessárias para o desenvolvimento das outras espécies que tem necessidades específicas como por exemplo, um nível de sombreamento maior. Além de outras importantes funções como a cobertura permanente do solo, prevenção contra a erosão e armazenamento da água. Essas espécies são chamadas também de  “plantas cuidadoras” ou “plantas mãe”.

As espécies de acumulação que utilizei foram: Banana da terra e prata, Neem indiano, Capim mombaça, capim napier e milho   

Espécies de produção

Essas espécies, alem da função ambiental, tem a função econômica no sistema, ou seja, na produção de alimentos que sairão no momento certo ou para consumo próprio ou para comercialização.

É importante no momento da escolha dessas espécies atentar para os hábitos de consumo da região onde você está inserido.  A minha escolha foi: Alface lisa, tomate cereja, coentro, couve manteiga, cebolinha, mandioca e abóbora de tronco. E as frutíferas cajá-mirim, caju-anão e cacau.

Espécies com dupla aptidão

Como o próprio nome diz, essas espécies estão no sistema e cumpre duas funções a de produzir e acumular. Alguns exemplos dessas espécies na minha agrofloresta são as bananas, cajá-mirim. Após a retirada dos cachos, o caule da bananeira é cortado, fatiado e disposto sobre o solo, isso disponibiliza água e nutrientes para o solo. Já o caja-manga é uma árvore decídua, suas folhas caem no outono disponibilizando matéria orgânica no solo, além de muito adaptada aqui na região norte do estado do Espírito Santo.

Segundo passo: O fluxo produtivo e de acumulação

O fluxo produtivo irá determinar o que sai e o que entra no sistema. Para planejar bem esse momento é importante ter informações sobre o ciclo de cada espécie para que ao longo do tempo tenha sempre a produção de alimentos e de massa verde na agrofloresta. Você pode utilizar uma tabelinha simples onde são escritas as espécies de acordo com seu tempo de permanência na área.

De 0 a 6 meses; de 1 a 3 anos; de 3 a 5 anos; de 5 a 10 anos e mais de 10 anos.

Terceiro passo: O arranjo agroflorestal

Esquema do arranjo da horta agroflorestal. (Imagem: Fabio Morais – Universidade Orgânica EAD)

Como as espécies estão dispostas na área e suas interações no tempo e no espaço é o chamado arranjo agroflorestal.

Esse arranjo deve ser de tal forma que cada espécie ocupe seu lugar cumprindo sua função no tempo e saindo do sistema no momento certo.  Eu optei por fazer todo o sistema em canteiros, inclusive os berços onde serão plantados as espécies dos estratos médio e alto.

A distância de cada berço ou núcleo de espécies será de dois metros.

Bem, não perca a continuação desse artigo onde conto como está sendo a implantação da minha horta agroflorestal. Se você quer ser um aluno da Universidade Orgânica, deixe seu comentário logo aqui abaixo. 

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Fabio Morais


Gosto do cheiro da terra molhada e tomar banho de chuva. Gosto da roça, do contato com a terra. Minha profissão! Engenheiro Agrônomo que ama a agricultura orgânica e agroecologia.

  • Hugo Delponte Vidal

    Oi! Estou curioso para saber como anda a implantação da sua horta agroflorestal. Terei um terreno com medidas aproximadas a sua e tenho planos de fazer uma também.

    • Fabio Morais

      Oi Hugo, consegui colher a alface, couve e tomates. Mas como tenho um lindo pé de manga bem no centro do terreno, a sombra é muito grande. As mandiocas, as bananeiras e as arvores de neem estão se desenvolvendo, mas as frutiferas não estão se dando bem com a mangueira. Como a casa que estou é alugada não posso fazer uma poda mais drástica na mangueira. Mesmo assim já colhi as hortaliças.